Dona Zefa trabalhou em minha casa por apenas 3 anos. Apenas para mim passou pouco tempo, mas para ela deve ter sido um tempo danado. Ela vinha duas vezes por semana, às terças e às quintas. Chegava às 8:00 e ia embora lá pelas 18:00 ou 19:00 às vezes. A casa era grande e para limpar e arrumar tudo ela levava um bom tempo. Além disto estavam incluídas as tarefas de passar roupa e organizar algumas coisas na casa.
Eu e minha esposa, quando a contratamos, a deixamos a vontade para cobrar o que ela achava certo pelo que tinha a fazer, os dias que eram melhores para ela e mesmo o horário. Nunca exigimos dela mais do que conversamos antes da contratação. Tudo foi acertado. Inclusive o valor que a pagávamos era bem mais alto do que a média que se paga por diárias por ai.
Até que um dia algo ruim aconteceu. Perdi meu emprego e para nossa própria contenção de custos, até que outra fonte de renda pudesse ser conseguida, tivemos que dispensar a Dona Zefa. Não dormi por duas noites antes de dispensá-la. Sei das dificuldades dela, o longo trajeto de casa ao trabalho, a quantidade de filhos, marido aposentado por invalidez e por ai vai. Dona Zefa era o sustento da família. E tentei achar uma solução que fosse o melhor para ambos. Antes de dispensá-la comecei a ligar para amigos e familiares "vendendo" os serviços da Dona Zefa e tentando uma recolocação a ela. Achei que devia dado os anos bons que ela passou conosco, sempre educada e prestativa, faltando poucas vezes principalmente quando o marido não estava bem (mas sempre acabava compensando uma falta vindo no sábado muitas vezes sem nem esperarmos que ela o fizesse).
Deste modo, fiz com ela o que gostaria que fizessem comigo: tentei ter o máximo respeito pela pessoa / profissional que estava ali na minha frente e que me tinha sido tão útil. Chamei-a ao escritório, pedi que sentasse e ela, que já estava com a cara assustada ficou pior ainda quando comecei a falar: "Dona Zefa, a senhora está conosco já há alguns anos, sempre fazendo o melhor, deixando tudo limpo e arrumado e não há o que eu tenha que reclamar de você, do seu trabalho, enfim, de nada. Infelizmente, eu perdi meu emprego há alguns dias e não consegui arrumar outro ainda e preciso cortar despesas para conseguir manter a mim e minha esposa. Já estamos fazendo economias com várias coisas e, infelizmente, não vou poder continuar a contratando".
Neste momento, ela já ia esboçar um choro, ou ao menos parecia. E continuei: "Mas antes de vir aqui falar com a Senhora, eu estive conversando com amigos e pessoas da minha família e recomendei os seus serviços. Tenho um amigo interessado em contratar a senhora para trabalhar dois dias na casa dele e minha mãe gostaria que a senhora trabalhasse para ela um dia na semana. Ao invés de perder 2 diárias por semana, estou te oferecendo 3 diárias com outras pessoas. O que a senhora acha?".
O semblante passou de medo a alegria. O choro foi inevitável. Me agradeceu muito. Disse que não poderia estar mais contente porque o início da conversa foi assustador porque ela não poderia agora deixar de ganhar aquele dinheiro e que na verdade, eu estava era dando um aumento a ela.
Agora vou contar a vocês como foi a minha demissão de uma grande empresa da minha cidade ligada, entre outros negócios, ao ramo de logística e comércio exterior: numa bela manhã de segunda-feira, me arrumei, coloquei o uniforme padrão da empresa, saí de casa no horário de sempre, peguei meu carro na garagem e me dirigi ao trabalho. O trânsito estava bom aquela manhã e, não fosse o calor absurdo, teria chegado menos gosmento ao trabalho. Cheguei ao meu departamento, marquei meu ponto eletrônico, sentei na minha mesa e fui à sala do meu gerente para dar um bom dia (pessoalmente, gosto muito do meu agora ex-gerente. É uma pessoa extremamente inteligente e humana no melhor sentido da palavra. O tipo de líder que você segue para onde for) e ver o que iríamos fazer primeiro dado o projeto em que estamos alocados. Eu disse que iria verificar o andamento das tarefas da equipe que coordeno, leria algum e-mail urgente e viria falar com ele sobre as especificações dos módulos restantes do sistema no qual nosso projeto deveria desenvolver. Ele assentiu com a cabeça, e eu entendi que era para eu fazer o que disse que faria.
Menos de 10 minutos depois, por volta das 8:15 da manhã, entra na sala dele o psicólogo do RH responsável por recrutamento e seleção e ele me chama: "Vem cá um instante". Fui.
Disse ele: "Paulo, a empresa está passando por um novo ajuste. Meio do ano passado tivemos que enxugar gente aqui no departamento de TI para conter custos e, este ano, a coisa já começou novamente. Tentei argumentar quando o pedido veio da diretoria mas eles estão irredutíveis. Preciso te dispensar. Está aqui o psicólogo do RH que vai te passar alguns formulários, vai te ajudar a recolher suas coisas e você pode ir para casa".
Eu estava catatônico. Esta empresa é famosa por duas coisas na cidade: ser uma escola para os concorrentes irem buscar recursos e dispensar gente o tempo todo por qualquer motivo. Se vocês acompanham este blog, vejam o que relatei sobre a economia burra. Eles fazem isto todo santo dia. Eu não sabia o que dizer ao meu gerente. Se pedia socorro, se sorria, se chorava.
Disse se eu tinha que ir naquele dia mesmo, expressei minha preocupação sobre o projeto que estava em andamento, sobre a comunicação da minha saída para a equipe, afinal, era o líder deles e poderiam ver aquilo de forma negativa, poderia causar uma ruptura na equipe e afundar o projeto. Não me disse nada. Apenas que eu deveria ir embora.
Escoltado pelo rapaz do RH, abri minha gaveta, peguei o que lembrei que havia ali e que era meu. Acabei deixando livros no armário que, quer saber, fique com eles, são velhos mesmo. E não estava acreditando no que estava acontecendo. Mal pude me despedir das pessoas. Não tinha como dar um tour pelos departamentos e me despedir das pessoas com as quais trabalhei por dois anos. Não tive como ligar para outras de outras filiais com as quais falava quase que todos os dias para me despedir. Não pude sequer mandar um e-mail com o endereço da empresa para dizer algumas últimas palavras. Passei por algumas pessoas que me olhava com incredulidade ... outras sequer olhavam ... outras olhavam com pena como se eu estivesse condenado à morte.
Poucos me desejaram sorte. Poucos me foram amáveis.
Foi o desligamento mais humilhante no qual já passei. Lembrei do primeiro dia no emprego quando entrei com o status de Novo Coordenador da TI. "Olha, o cara veio da capital, já trabalhou em empresas internacionais, é o cara! Vai dar jeito em tudo", diziam uns. Todos me cumprimentavam. Gente que eu sabia que não iria com a minha cara vinha falar comigo e me desejar sorte. E estas mesmas pessoas que vieram com tanto oba-oba na minha chegada, não olham nos meus olhos na minha saída. Uma delas, virou o rosto e começou a fazer uma ligação telefônica quando eu passei na mesa dela para me despedir. "O CARA" era agora um derrotado qualquer subjugado ao desemprego, humilhado e seu nome será apagado da história da empresa. Quanta humanidade!
Enganam-se os que acham que minha saída daquela empresa é o fim. Nunca é. Somente um recomeço. Um brilhante e maravilhoso recomeço. Agora posso financiar minhas idéias e possivelmente ser dono de mim mesmo. O céu é o limite ou eu volto a procurar emprego em outro lugar. Não tenho frescura. Faço qualquer coisa e vivo minha vida.
Foi por isso que pensei na Dona Zefa. Não a queria humilhada como me humilharam. Não vou ser brasileiro que faz o que todo mundo faz. Eu comando minha vida e faria do meu jeito. Ela não seria dispensada de qualquer jeito. Eu não jogaria a Dona Zefa na lata do lixo porque eu não tenho mais como tê-la na minha folha de pagamento. Não. Dona Zefa seria tratada como eu gostaria de ter sido tratado: com RESPEITO.